Projeto percorreu Várzea Grande, Cuiabá e Santo Antônio de Leverger com palestras “Contemplando o Autismo” e rodas de conversa sobre vivências, acolhimento e inclusão
Por Beatriz Saturnino – Da Assessoria de Imprensa
Após percorrer diferentes localidades de Mato Grosso, a terceira edição do projeto social Despertar para o Autismo, em 2026, encerrou sua programação depois de realizar seis ações voltadas à conscientização, à informação, à escuta e ao acolhimento de pessoas que conviviam direta ou indiretamente com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Realizado entre março e junho, o projeto promoveu seis palestras com o tema “Contemplando o Autismo”, acompanhadas de rodas de conversa com um verdadeiro intercâmbio de vivências para partilha de saberes, reunindo famílias, cuidadores, educadores, profissionais da Educação e da Saúde e a comunidade em geral.
Realizado pelo Instituto INCA – Inclusão, Cidadania e Ação, em parceria com o Instituto Psicossocial Renascer do Autismo (IPRA), o projeto contou com patrocínio do Governo do Estado de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (Setasc-MT), via emenda parlamentar impositiva do deputado estadual Wilson Santos, e apoio da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT).
A iniciativa deu continuidade ao trabalho desenvolvido desde 2022 e às experiências positivas das edições anteriores, levando informação e conhecimento sobre o autismo para diferentes públicos. A proposta partiu da compreensão de que a falta de informação ainda era um dos principais obstáculos para a inclusão e poderia contribuir para situações de preconceito, bullying, intolerância e julgamentos enfrentados diariamente por pessoas autistas e suas famílias.
OS ENCONTROS
A terceira edição começou nos dias 10 e 11 de março, na EMEB Abdala José de Almeida, localizada no bairro São Mateus, em Várzea Grande.
A segunda ação aconteceu nos dias 24 e 25 de março, na Escola Estadual Souza Bandeira, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, região do Coxipó, bairro Jardim Shangrilá, em Cuiabá.
Nos dias 8 e 9 de abril, o projeto chegou a Santo Antônio de Leverger, onde a terceira ação foi realizada na Câmara Municipal, no Centro do município.
A quarta etapa ocorreu nos dias 22 e 23 de abril, na EMEB Rita Auxiliadora de Campos, na Avenida Venezuela, no bairro Mapim, em Várzea Grande. A atividade integrou o período do Abril Azul, campanha mundial de conscientização sobre o autismo, que tem o dia 2 de abril como marco para ampliar a disseminação de informações, combater o preconceito e promover os direitos das pessoas autistas.
A quinta ação foi realizada nos dias 11 e 12 de maio, na EMEB Maria Elazir Corrêa de Figueiredo, localizada na Avenida Carlos Ador de Souza, 541, no bairro São João Del Rei, em Cuiabá.
O encerramento aconteceu nos dias 10 e 11 de junho, na EMEB Professor Ezequiel de Siqueira, na Rua Manoel Leopoldino, 403, no bairro Araés, em Cuiabá, concluindo o ciclo de seis ações da terceira edição.
Em cada localidade, a programação foi desenvolvida em dois dias. No primeiro, os participantes acompanharam a palestra “Contemplando o Autismo” e, no segundo, participaram da roda de conversa “Intercâmbio de Vivências para Partilha de Saberes”.
Os encontros aconteceram no período noturno, estratégia adotada para facilitar a participação de pessoas que trabalhavam durante o dia e de famílias que precisavam conciliar as atividades profissionais com a rotina escolar. A programação também ofereceu lanche e certificado aos participantes.
VIVÊNCIA E CONHECIMENTO
As seis palestras foram conduzidas por Juliana Maria Silva Fortes, presidente do Instituto Psicossocial Renascer do Autismo (IPRA), mãe de um adolescente com o espectro e diagnosticada dentro do espectro na fase adulta, em 2022.
Com a experiência de quem vivenciava o autismo tanto pela maternidade quanto pela própria condição, Juliana compartilhou informações e experiências sobre o TEA, aproximando o conhecimento da realidade enfrentada pelas famílias.
A palestra abordou as características do espectro, os diferentes níveis de suporte, as estereotipias, as crises e os desafios relacionados à inclusão social e escolar. A proposta também contribuiu para ampliar a compreensão sobre as diferentes formas de manifestação do autismo e sobre a necessidade de respeitar as particularidades de cada pessoa.
A trajetória de Juliana também trouxe ao público reflexões sobre a maternidade atípica. Segundo ela, mães de crianças autistas poderiam enfrentar níveis elevados de estresse devido ao estado constante de alerta, à necessidade de antecipar crises, administrar situações inesperadas e lidar com a sobrecarga emocional, muitas vezes agravada pela falta de uma rede de apoio.
A realidade apresentada durante os encontros demonstrou que, para muitas famílias, o diagnóstico do autismo vinha acompanhado de mudanças profundas na rotina, nas relações familiares e na organização financeira. O tratamento, as terapias e o acompanhamento médico poderiam representar custos elevados, dificultando o acesso de famílias que não tinham condições de arcar com esses serviços de forma particular.
ESPAÇO PARA ESCUTA
No segundo dia de cada etapa, as rodas de conversa ampliaram o diálogo iniciado nas palestras. O formato permitiu que os participantes apresentassem perguntas, opiniões, relatos e experiências, criando um espaço de escuta qualificada e troca de saberes.
O “Intercâmbio de Vivências para Partilha de Saberes” teve justamente o objetivo de facilitar o bate-papo entre Juliana e os participantes, possibilitando a troca de palavras, ideias, experiências e informações sobre situações vivenciadas no cotidiano.
As conversas também permitiram discutir os desafios encontrados por pais, mães, cuidadores e profissionais que conviviam com pessoas autistas. A partir dos relatos apresentados, foi possível refletir sobre crises, comportamentos, comunicação, inclusão, convivência familiar e escolar e estratégias para lidar com diferentes situações do dia a dia.
A iniciativa também chamou atenção para o fato de que muitas pessoas poderiam permanecer durante anos sem compreender determinadas características relacionadas ao espectro. Antes do diagnóstico, algumas acabavam sendo rotuladas ou julgadas por não se encaixarem em determinados padrões sociais. O relato de Juliana, diagnosticada na fase adulta, contribuiu para mostrar como o conhecimento sobre o próprio funcionamento poderia transformar a maneira de compreender a própria história.
Portanto, a inclusão começa pelo conhecimento. Para a psicóloga Gisele Macene, do Instituto INCA e coordenadora da execução da terceira edição, acompanhar cada etapa do projeto permitiu testemunhar diretamente o impacto provocado pela informação, pela escuta e pelo acolhimento.
“Como psicóloga e coordenadora de execução deste projeto, tive o privilégio de acompanhar de perto cada etapa dessa jornada e testemunhar o poder transformador da informação, da escuta qualificada e do acolhimento. Mais do que compartilhar conhecimentos sobre o Transtorno do Espectro Autista, construímos espaços de diálogo, fortalecemos redes de apoio e reafirmamos que a inclusão começa pelo conhecimento e se concretiza por meio de uma sociedade mais preparada, sensível e humana”, destacou Gisele.
LEGADO
Ao chegar ao fim da terceira edição, o Despertar para o Autismo deixou uma trajetória marcada pela informação, pela escuta e pelo diálogo. Reforçou que a conscientização não deveria se limitar às datas do calendário, como o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril, ou o Dia Mundial do Orgulho Autista, em 18 de junho. A construção de uma sociedade inclusiva precisava acontecer de forma contínua, por meio da informação, da empatia, do respeito e da garantia de direitos.
Com o encerramento das atividades, o Instituto INCA reafirmou seu compromisso com a inclusão, a cidadania, a saúde mental e a dignidade humana, fortalecendo o propósito de contribuir para uma sociedade mais preparada para compreender, respeitar e valorizar as pessoas autistas e suas famílias.