"Boa noite a todos. O CINEMATO, criado em 1993, com 23 edições executadas, foi tombado há 25 dias como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado de Mato Grosso. Este reconhecimento local pouco serviu para que o Festival (CINEMATO) pudesse ter, entre seus patrocinadores, a volta do Ministério da Cultura. Fomento este interrompido desde o impeachment da presidenta Dilma. Fato este exposto presencialmente à secretaria da SAV (Secretaria do Audiovisual), Joelma Gonzaga, quando em nossa visita em Brasília, em abril de 2004, solicitamos a criação de um mecanismo para reverter essa situação, que impôs dificuldades e extinção de importantes Festivais de Cinema no Brasil, desde então. Ficamos felizes quando esta Secretaria se mostrou interessada organizando um edital com financiamento as traves de recursos diretos de alguma estatal. Lamentamos mais tarde descobrir que não basta recursos sem uma gestão competente, transparente e justa desses editais. É nesse contexto que o Cinema Brasileiro reunido no 23° Cinemato elaborou a carta que segue e submetemos a sua apreciação e assinatura de solidariedade e defesa democrática da cultura que não pode se silenciar e se omitir na sua luta pelo direito de existir. Obrigado. Luiz Borges"
Carta de Cuiabá - 23º Festival de Cinema de Cuiabá - CINEMATO 2026
Ao Ministério da Cultura,
À Secretaria do Audiovisual,
Aos Festivais de Cinema do Brasil,
À Imprensa e à Sociedade.
Nós, realizadores do Festival de Cinema de Cuiabá, artistas, cineastas, produtores culturais e público presente nesta edição de encerramento, vimos a público manifestar nossa posição e registrar este protesto.
Em primeiro lugar, saudamos a gestão do Ministério da Cultura, parabenizando esta administração pela ampliação dos recursos da cultura e pela política de reconstrução do setor, que tem se dedicado a democratizar o acesso aos mecanismos de fomento em todo o território nacional.
No entanto, vimos a público manifestar nossa profunda insatisfação e indignação com os critérios e o resultado do Edital de Chamamento Público MinC nº 7, de 30 de outubro de 2025 – Programa Rouanet Festivais Audiovisuais.
O Festival de Cinema de Cuiabá inscreveu um projeto de atividades extensivas, com programação a ser realizada no ano de 2026, abrangendo não apenas a capital, mas cidades polos de Mato Grosso. O projeto, devidamente inscrito e fundamentado, foi HABILITADO– ou seja, a documentação foi considerada correta e apta a participar da seleção.
Fomos surpreendidos com um resultado negativo, cujo parecer apontou a desclassificação com base no artigo 3.3 do edital, que classifica o festival no módulo de tempo de existência, ou seja, não possuiria o tempo mínimo exigido de existência ou número de edições.
Tal justificativa é não apenas frágil, mas contradiz o reconhecimento oficial do estado de Mato Grosso, que já consagrou o Festival de Cinema de Cuiabá como patrimônio cultural por meio da Lei nº 13.464. O próprio projeto que originou essa lei já registrava, à época, os 33 anos de trajetória do festival, fato que demonstra a inconsistência do parecer que nos desclassificou.
Diante disso, protocolamos recurso administrativo, demonstrando a inconsistência do parecer e a nossa regularidade, amparados inclusive pela legislação estadual que atesta nossa existência e relevância. No entanto, para nossa decepção, a comissão manteve a desclassificação, ignorando os fatos, os documentos apresentados e o reconhecimento legal conquistado perante o estado de Mato Grosso.
Este episódio revela uma questão central: não basta que o governo federal demonstre interesse em desenvolver a cultura e democratizar seu acesso. É fundamental que haja investimento qualificado nos processos seletivos. Os editais têm se consolidado como uma das principais ferramentas de fomento, e exigem que os projetos sejam avaliados, no mínimo, por pessoas devidamente remuneradas, preparadas e com competência técnica para analisar cada proposta com o cuidado que ela merece. Caso contrário, resultados equivocados e decisões arbitrárias maculam a credibilidade do processo e prejudicam projetos que, de fato, atendem às diretrizes do programa.
Neste momento, reafirmamos a importância do Festival de Cinema de Cuiabá para o estado de Mato Grosso e para a região Centro-Oeste e para o País. Somos um festival que ao longo de sua trajetória construiu um histórico de formação de público, difusão do audiovisual brasileiro e valorização das identidades regionais, exatamente os objetivos declarados pelo próprio programa Rouanet Festivais.
Mais do que isso: somos patrimônio cultural do estado de Mato Grosso, reconhecidos por lei, e não podemos ser tratados como um festival sem história ou sem lastro.
Assim, deixamos registrado o nosso protesto:
1. Contra a desclassificação arbitrária do Festival de Cinema de Cuiabá no Edital nº 7/2025, que desconsidera nossa trajetória de 33 anos e o reconhecimento legal conquistado;
2. Pela revisão dos critérios de avaliação, exigindo transparência, formação técnica dos avaliadores e respeito à legislação que reconhece nossa existência e relevância cultural;
3. Pela garantia de que o fomento público chegue de fato aos festivais consolidados, especialmente aqueles localizados nas regiões com cotas territoriais, como o Centro-Oeste.
Que esta Carta de Cuiabá ecoe como as anteriores: seja lida pela imprensa, divulgada em todo o Brasil e sirva de alerta para que a política cultural brasileira continue avançando, mas com justiça, competência e respeito àqueles que constroem a cultura nacional todos os dias.
Assinam esta carta os realizadores, curadores, equipe, parceiros e público presente no encerramento do Festival, além de todos os que, pela internet, se somam a este manifesto pela democratização do acesso aos recursos culturais e pela valorização dos festivais de cinema do Brasil.
Para assinatura, no link abaixo:
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdYpHNk6BGP6v3bDgEHKAm_CsFNABMjcwx8TnajIExbJU6IzQ/viewform